Dia do Antigomobilismo: quais oportunidades o mercado de clássicos mostra para as revendas premium?
Publicado por: Diego Santos
Em: 28/10/2026
O Dia Estadual do Antigomobilismo, celebrado em 28 de outubro, chega com o mercado de carros antigos num momento incomum: mais caro, mais profissional e com os importados dos anos 1990 entrando na fila da placa preta. O setor movimenta R$ 32,6 bilhões por ano no Brasil, segundo levantamento da JDA Research para a FIVA, e já tem leilão que fecha mais de R$ 26 milhões num único pregão, Jaguar XJ220 vendido por R$ 6,9 milhões, fundo de investimento dedicado a clássicos de luxo e montadora com programa oficial de restauração. A seguir, os números desse mercado, a valorização dos clássicos premium e o peso da placa preta, e o que tudo isso significa em oportunidades para a revenda de alto padrão.
Dia Estadual do Antigomobilismo: o que é a data e por que ela importa ao mercado
A comemoração paulista nasceu de um projeto de 2009 que virou a Lei 13.934, de janeiro de 2010, com data fixada em 28 de outubro. A justificativa do projeto apresentava o antigomobilismo como um movimento da sociedade civil de preservação da memória, em que cada carro carrega a história de um dono, de uma família ou de uma época, e dava destaque ao trabalho dos restauradores. Mais de uma década depois, o setor que a lei homenageia tem números de cadeia industrial, e o poder público passou a tratá-lo desse modo.
São Paulo não está sozinho nessa movimentação. Mato Grosso do Sul criou em 2026, pela Lei 6.569, o seu Dia do Antigomobilista, na semana de 5 de setembro. Em Mato Grosso, projeto na Assembleia propõe a mesma data, escolhida por lembrar o lançamento da Romi-Isetta, em 1956, primeiro carro produzido no Brasil. Belo Horizonte tem semana municipal do antigomobilismo, em torno de 15 de agosto, desde 2023, e a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou em 4 de novembro de 2025 projeto que busca fazer de Brasília a Capital do Antigomobilismo. O próprio Detran-SP lançou, em fevereiro de 2026, uma página exclusiva para veículos antigos, que concentra serviços de regularização, de certidão para carros de placa amarela e de placa preta. Os autores das leis justificam as datas com cultura, memória e turismo, e apontam o efeito sobre hotelaria, comércio e serviços das cidades que recebem encontros.
Quanto movimenta o mercado de carros antigos no Brasil
Dos R$ 32,6 bilhões anuais, a manutenção responde por R$ 16,1 bilhões, o comércio de veículos antigos por R$ 12,3 bilhões, os eventos por R$ 3,5 bilhões e as mensalidades de clubes por R$ 768 milhões. O país tem 3,2 milhões de veículos históricos nas mãos de 1,2 milhão de colecionadores, uma média de 2,7 carros por pessoa, e a frota de antigos equivale a cerca de 3% do total em circulação. O colecionador médio tem 52 anos, 79% são associados a algum clube e 88% frequentam eventos do segmento. Cada carro fica em média 11 anos com o mesmo dono, que roda 779 km por ano com ele.
No topo, o dinheiro anda em outro patamar. A Venda de Outono do museu CARDE, em Campos do Jordão, vendeu 50 carros em 2 de maio de 2026 por mais de R$ 26 milhões, com 789 lances, o que dá um ticket médio acima de R$ 520 mil. O destaque foi um Jaguar XJ220 1994, arrematado antecipadamente por R$ 6,9 milhões, e o pregão reuniu ainda um Dodge Viper RT/10 e dois Opala do programa Vintage, da General Motors, vendidos por R$ 550 mil cada. O Encontro Brasileiro de Autos Antigos de Águas de Lindóia, apontado como o maior da América Latina, reuniu cerca de 1.500 veículos e um público estimado em 530 mil pessoas em 2025, e para 2026 a organização falava em mais de 1.000 carros expostos e cerca de 700 à venda. O Circuito de Leilões soma mais de 9.500 veículos negociados em quase uma década, e a gestora Azimut Brasil anunciou um fundo de investimentos dedicado a clássicos de luxo.
O setor automotivo também passou a dar palco ao tema. O Automotive Business Experience, realizado em 1º de outubro, teve uma arena de antigomobilismo com uma Ferrari F40 1990 e um Porsche 911 (993) Turbo 1997 expostos pelo CARDE e um painel sobre os desafios de precificar clássicos no Brasil. As montadoras entraram de vez: o Chevrolet Vintage, da General Motors, restaura e moderniza clássicos da marca, inclusive em versões restomod, e a Jaguar Land Rover mantém na fábrica de Itatiaia, no Rio de Janeiro, uma área para restaurar clássicos próprios, pensada principalmente para antigos Defender.
Valorização de carros antigos: o que está subindo e por quê
O centro de gravidade do mercado mudou de década. O diretor da FBVA na Grande BH afirma que os carros dos anos 1970, 1980 e 1990 são os que mais movimentam o setor, enquanto os dos anos 1950 e 1960 perdem espaço porque quem sonhou com eles envelhece, e que o público que aquece as vendas está entre 30 e 50 anos. Para o segmento premium, a década de 1990 tem um peso próprio: o Brasil reabriu as importações em maio de 1990, depois de 14 anos de portas fechadas, e a Ferrari F40 virou um símbolo desse período. O Circuito de Leilões aponta Golf, BMW, Porsche e Ferrari entre os youngtimers mais desejados do momento, e uma reportagem da Folhapress mostrou que 70% dos carros dos anos 1990 que passam por uma oficina especializada são importados.
A conversa sobre preço também mudou de lugar. Luiz Goshima, diretor do CARDE, descreve um momento em que o componente sentimental dos clássicos se soma a novas oportunidades comerciais e de relacionamento entre colecionadores, e a precificação virou tema de painel em evento do setor. Quem compra tem perfil conhecido: o organizador do Rally Clássico afirma que metade dos inscritos viveu a juventude nos anos 1990 e agora tem poder de compra, e a Folhapress cita dados da seguradora Hagerty que colocam a Geração X no centro do mercado mundial de clássicos. Os importados ajudam em um ponto da conta, porque o chassi leva ao código da peça, que se encontra em qualquer lugar do mundo, embora o custo de manutenção continue alto e marcas como a Alfa Romeo exijam cuidado redobrado.
A Tabela Fipe mostra por que ela deixou de servir de régua para o clássico premium. Em julho de 2026, trazia R$ 114.697 para um Porsche 911 Carrera Coupe 1996, valor médio de mercado geral que não diferencia o exemplar original, de baixa quilometragem e histórico completo, do carro comum. O preço de um clássico depende de estado de conservação, originalidade, histórico, quilometragem, versão, cor, documentação e, quando existe, placa preta. Entre os nacionais, modelos como Gol GTI, Escort XR3, Tempra Turbo e Opala também dispararam, mas é nos importados e nos raros que estão os tickets que interessam a uma revenda premium. A valorização não é garantida, o clássico não tem a liquidez de uma aplicação financeira, e até a cobertura do evento do CARDE faz a ressalva de que não existe garantia de valorização.
Placa preta: o que ela faz com o preço do carro
A valorização atribuída à placa preta aparece em estimativas de imprensa que vão de 20% a 50%, e o efeito vem de a placa funcionar como prova documental de que uma entidade independente atestou o estado e a originalidade do carro. Na hora da venda, o CVCOL precisa ser reemitido em nome do novo proprietário, e o carro que perde a originalidade pode perder a placa, o que faz da documentação parte do produto. Há também o risco da placa obtida sem cumprir os requisitos: o próprio setor reconhece casos de certificação paralela, e a Senatran mantém canal de denúncias, o que torna a reputação do clube certificador parte do valor do carro. O calendário vai ampliando o universo: carros de 1996 completam 30 anos em 2026, e o Vrum lista importados do período, como o BMW Série 5 E39 e o Audi A3 de primeira geração, entre os modelos que se aproximam da placa.
Oportunidades para a revenda premium que o Dia do Antigomobilismo mostra
Os carros que entram na idade de coleção abrem uma oportunidade de narrativa que um anúncio de classificados não comporta. Os importados de 1996 completam 30 anos em 2026 e os de 1997 completam em 2027, e cada safra traz modelos com geração, versão, histórico e contexto de época para contar, como a reabertura das importações em 1990 que marcou a chegada dessa geração ao Brasil. Quando um carro assim está no estoque, a apresentação precisa ir além de ano, quilometragem e preço: explicar por que aquela unidade importa para o entusiasta é o que transforma um usado em objeto de desejo e coloca a loja como autoridade no assunto.
A documentação do carro também é conteúdo. Fotos de detalhes de originalidade, histórico de manutenção organizado e, quando existe, a certificação do veículo respondem à principal dúvida de quem compra um clássico, e uma página dedicada a carros de coleção no site próprio da revenda reúne esse material num canal que pertence à loja e pode ser encontrado no Google por quem pesquisa o tema. O interesse existe: as buscas por restauração de carros antigos no Google passaram de 100 mil em 12 meses, alta de 24% segundo a Emaster.
A discussão sobre valorização e precificação de clássicos já ocupa os eventos do setor, como o painel do Automotive Business Experience, e é um espaço em que a revenda ganha reputação ao mostrar repertório. No Blog Auto Business, já contamos como identificar carros esportivos e de luxo com potencial de valorização, e é essa leitura de escassez, originalidade, histórico e narrativa que a loja pode transformar em conteúdo próprio, em vídeos, redes sociais e e-mail marketing, para chegar ao entusiasta antes que ele esteja comparando preços.
O calendário do antigomobilismo oferece pautas e pontos de contato ao longo do ano: o dia paulista em 28 de outubro, a semana de 5 de setembro em Mato Grosso do Sul, a semana municipal de Belo Horizonte e encontros como o de Águas de Lindóia, que prevê cerca de 700 carros à venda em 2026. Num CRM bem alimentado, o cliente que comprou um esportivo importado pode ser lembrado quando um clássico entra no estoque, quando o carro dele chega à idade de coleção ou quando um encontro entra na agenda. Como 79% dos colecionadores pertencem a clubes e 88% frequentam eventos, a reputação circula nesse meio, e é nela que se apoia a confiança que o comprador premium busca antes de fechar negócio, como mostramos em o que o comprador de carros premium busca antes de fechar negócio.
O que o Dia do Antigomobilismo revela sobre o mercado premium
O Dia Estadual do Antigomobilismo mostra um mercado em que desejo, procedência e história do carro pesam tanto quanto o preço. Os números de leilões, encontros e valorização indicam que o carro de coleção deixou de ser território exclusivo de clubes e passou a fazer parte do universo do comprador premium. Para a revenda, a leitura é a mesma que vale para qualquer carro de alto valor: quem comunica bem o que torna cada unidade relevante constrói valor percebido, e quem constrói valor percebido depende menos da comparação direta de preço.
No fim, o antigomobilismo lembra que os carros mais desejados nem sempre são os mais novos nem os mais tecnológicos. Muitas vezes, são aqueles cuja história ainda faz sentido para quem os procura, e a revenda que sabe contar essa história se posiciona exatamente onde o comprador decide.
Quer acompanhar os movimentos do mercado premium, do antigomobilismo e das estratégias que ajudam revendas a fortalecer sua presença digital? Acompanhe outros artigos no Blog Auto Business e continue explorando análises sobre marketing automotivo, veículos premium, posicionamento de marca e tendências do setor.
Expediente
Redação: Gustavo Verça
Jornalista Responsável: Diego Santos